sexta-feira, 13 de março de 2009
"e quem quiser que conte outro......"
Obrigada a todos que participaram comigo dessa coisa gostosa que é escrever, viver um outro mundo, um outro lugar. Imaginar e imaginar.
Perdoar é uma coisa divina, nunca culpe aqueles que te deram a mão um dia, mas que erraram noutro, terão sempre uma explicação, escute mais e fale menos. Assim que se consegue sabedoria.
Abraços....!
e-mail: elle.any@gmail.com
(sugestões)
...
Meu coração disparou, freneticamente disparado, meu corpo pedia pra eu fugir dali o mais rápido possível, mas não tinha forças, nada me obedecia a vontade que tinha, de desaparecer como um mágico desaparece.
__ Helena é você. _neste momento eu não estava mais em mim, não pensava, mal respirava, não agia, não me mexia, era Leandro, o cheiro dele, aquele homem, ah como meu coração me traía.
__Helena meu amor é você. Minha vida. Você veio, precisamos conversar, não foge de mim mais, estamos te procurando a anos.
Eu não conseguia dizer nada, ele também mal conseguia respirar, e me apertava como se aperta o urso preferido da infância, e falava tantas coisas, tantas que mal posso relatar aqui, pois minha mente passou a não funcionar, eu me inebriava e tentava decifrar todos aqueles sentimentos que borbulhavam entre meus pensamentos, eu saía de mim, não era possível que ele não soubesse que éramos irmãos, que aquilo não podia, não era certo, não era um amor comum, éramos irmãos.
Ele ficou comigo, me pegou pelo braço não me deixou sair de perto dele um segundo se quer, sabia que eu fugiria daquela situação, daqueles sentimentos, ficou perto de mim, a cerimônia continuou, estava ali, mas não estava, eu sentia tanto pela vó, a amava tanto mesmo sem saber que era minha própria vó, a única pessoa da minha família, aliás tinha Leandro, meu próprio irmão, fomos impedidos de alcançar um amor de irmãos, um amor de proteção, um amor de cúmplices das travessuras da infância, eu estava para explodir com tantos sentimentos juntos, meu coração em alarde o tempo todo.
Leandro me levou até a mansão, eu não relutei não conseguia, eu me deixava levar mesmo querendo fugir como a cinco anos atrás, eu não queria saber de mais nada, eu já tinha perdido aquela família que eu nunca nem mesmo tive, mas ele me levou e eu por fim me deixei ir. A mansão, passamos momentos bons nos três ali, eu não conseguia olhar nos olhos de Leandro, não o encarava, e ele todo sereno parecia respeitar a minha vontade, como nos velhos tempos adivinhava os meus desejos, disse-me que iria me mostrar uma coisa, eu não relutei estava cansada de tanto fugir, voltei a mansão, voltou tudo dentro de mim, o sentimento amargado, reprimido, me deixei ir, chegar a biblioteca onde vó ficava lendo, e do lado de suas lembranças.
Na parede o quadro estava de volta ao seu lugar, era Izabel e eu, lembro-me daquele dia, nas visitas que recebíamos todos os meses no orfanato, os visitantes traziam lanches, brincadeiras, uns contavam histórias e ficávamos a sua volta, ouvindo, cantando, Izabel sempre ia me ver, era a minha melhor amiga, me contava histórias, me falava de sonhos, de valores, era o meu dia de criança preferido.
Leandro me trouxe uma carta, pude ver que ele estava muito abatido, triste, queria acarinhá-lo, mas não podia, não conseguia meus sentimentos ainda estavam exauridos por uma verdade que eu não queria saber, não queria acreditar, e me apegava ao passado, no nosso amor proibido, incestuoso, proibido.
Minha querida neta;
Enfim posso chamá-la assim, uma vontade guardada, engasgada que trouxe comigo. Perdoe-me, eu queria te falar a verdade, mas meu coração dizia não ser a hora, assim eu fui traída, porque te perdi mais uma vez, eu sabia que não agüentaria muito tempo, estou doente, e passei a minha vida a me lamentar pela sua ausência, a sua falta, e quando Leandro me trouxe você, ele me trouxe o meu tesouro de volta, minha filha perdoe-o por mim, cometi tantos erros no passado, tantos erros pela minha vida a fora, Izabel minha filha querida, não dei a ela como a você o amor que ambas mereciam, condenei as duas, a se amarem de longe, sem poderem ser de verdade mãe e filha, o orfanato onde você cresceu é um lugar onde eu ia, quis ajudar crianças, crianças que realmente não tinham uma família, Izabel aceitou por imposição minha não revelar quem era, ela te amava tanto, você foi concebida de um amor proibido e nossa família, defendia um falso moralismo, quando Leandro chegou a esta casa, ele com aqueles olhinhos marejados, gordinho e experto, foi aos poucos amolecendo meu coração, era a alegria que eu podia ter, quando perdi Izabel, ela tinha uma doença terminal, pude ainda amá-la no pouco tempo que tivemos, quando ela se foi percebi o quanto da minha vida eu desperdicei bradando um sentimento que não merecia e nem precisava estar comigo, precisou que minha filha, minha única filha se fosse, quando você saiu do orfanato, perdemos o seus rastros o seu contato, fiquei sabendo que foi decisão sua, não mais te achamos, e isso foi me matando aos poucos. Mas começamos a te procurar, passaram longos anos que para mim foram como uma eternidade, até que a encontramos, e Leandro incumbiu de traze-la para mim, você não sabe a alegria que foi quando te vi, minha filha, nos perdoe, e perdoe Leandro o amor de vocês é como um balsámo nas feridas que eu mesma fiz no meu coração, o amor de vocês é uma chance verdadeira para que eu possa ser perdoada, por você, por ele, por Deus, por Izabel, perdoe-o e a mim.
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Depois destas linhas, não pude conter tantas lágrimas que caíram dos meus olhos, lágrimas que por cinco anos permaneceram intactas, dentro, invadindo meu coração, por horas não consegui dizer mais nada, fiquei ali entregue a emoção de saber que eu possuía uma família, uma mãe, uma avó, Izabel, de saber que Leandro não era meu irmão e sim meu verdadeiro cavalheiro, pois me achou e me trouxe de volta. Entendi que todos temos motivos para mentir, julgando proteger, fazer o melhor para o outro, entendi que vó, minha vó, teve seus motivos, a perdoei com todo meu coração, pois me dera um lar feliz apesar de tudo, o orfanato era bem cuidado, sei que minha família era quem financiava tudo, e minha mãe que ia me visitar, sabia que tinha algo especial, ah Izabel, senti tanto quando ela parou de ir me ver, mas naquela época já entendia que os adultos tinham tanto a fazer, pensei que era como aqueles outros adultos que iam uma única vez e não voltavam nunca mais, apenas aceitei que ela não voltaria, ah minha mãe.
Entregue as lágrimas, meu coração aos pulos, e Leandro se atirou no chão junto comigo, eu quis abraçá-lo com toda a força que eu ainda achava dentro de mim, quis apertá-lo, fazer dele um pedaço de mim de tão perto que o trazia, um sentimento de alívio, de perda, de lembranças, tudo aquilo era demais para mim, logo pra mim que sempre fui tão forte.
Vi-me no jardim do orfanato, as flores, as cores, as paredes cor de rosa, tudo estava lá, levantei e fui até as minhas amigas, as meninas, todos com seus vestidinhos, e laços no cabelo, era o sábado de visitas eu sentia alegria dentro de mim, como antes, como naqueles anos. Chegando mais perto eu pude ver minha mãe, tão bela, doce, trazia para aquelas meninas e eu uma alegria tão grande, e transmitia paz, amor, ao falar ela fazia gestos, e nos fazia rir, era uma tarde linda.
Izabel me olhou nos olhos por um instante, era verdadeiramente minha mãe, ficamos assim olho no olho tão perto que podia ver os detalhes do rosto dela, dos olhos, minha mãe, ela me abraçou forte, eu senti o cheiro dela, um cheiro de mãe, e fiquei com meu coração em paz, ela me disse para dormir.
Ao acordar, eu estava em um hospital, eu me senti enjoada, Leandro estava lá, perto de mim, ele me abraçou forte e pediu para que eu não o abandonasse de novo, eu o abracei e ficamos ali por um tempo, era o abraço que eu tanto desejava sem poder aceitar, sem me julgar, era um abraço de amor.
Um enfermeiro entrou no quarto e anunciou uma visita.
__ Mamãe, mamãe!!!
Era João com aquela alegria toda e pulou em cima de mim, e me abraçou e apertou com toda a força dos seus cinco anos de idade. Roberto entrou logo depois, e me contou todas as proezas que fizera João na minha ausência, eu já estava com muitas saudades.
Leandro estava saindo do quarto, estava com os olhos vermelhos, assim como os meus olhos.
__Roberto este é Leandro, Leandro este é meu grande amigo e anjo da guarda, Roberto!
Leandro estava meio em choque, com aquele olhar de quem não estava entendendo algo, quando João disse com uma voz de alegria e excitação!!
__É papai mamãe? – neste momento meus olhos se encheram d’água e tudo que pude fazer foi chorar, abracei João, Leandro chegou mais perto e num similar de euforia e emoção nos abraçou também, era os meus dois amores, agora juntos e permitidos, eram minha vida. Leandro não sabia o que dizer e balbuciava qualquer pergunta, mas seu coração estava fazendo uma descompassada melodia, era aqueles mesmos olhos que eu passava minha vida a lembrar, a imaginar, a amar.
João, meu menino, meu amor, quando saí daquele hospital naquela euforia a cinco anos atrás, naquela dor que invadia meu peito, não era só eu, tinha João, e eram tantas descobertas, tanta euforia, que eu só pensei em protegê-lo de tudo e de todos. Quando me mudei de cidade, conheci Joana e Roberto, que se tornaram grandes amigos e me ajudaram sempre. Eu trabalhei muito para dar a João a alegria e o conforto que eu podia dar, ensinei a ele os valores, a bondade, falei da minha vida, da minha história, apesar da distância, das circunstancias falava para João como seu pai era especial, e pretendia um dia apresentar os dois, pois pensava na minha vida, sem uma família e não iria negar isso a meu filho, nós dois não tínhamos culpa daquelas circunstâncias, de nos apaixonarmos, meu único e amado filho, filho de um amor, um amor sincero, um amor verdadeiro.
Fim
quarta-feira, 11 de março de 2009
Sinto que eu posso tudo, posso viver, inventar vidas, nomes, todas as coisas, hoje sou uma pessoa, amanhã outra, no orfanato as vezes brincávamos de ser, artista, homem, mulher, mãe, mendigo, filha, filho, naquela época tínhamos o poder de sonhar e sonhamos.
Tanto tempo se passou e os sentimentos, as histórias, as cartas e as manhãs de sábado se tornaram parte de mim, dos meus pesadelos, das lembranças boas e ruins, eu fugi de lá, daquela cidade, fugi de Leandro, eu fugi, tentando levar comigo o que eu nunca tive, aquela família, o irmão, aquela história, Izabel, é como se eu tivesse perdido o que eu nunca cheguei a ter, eu tentei deixar tudo de lado, fugindo, há cinco anos ando pela vida a fora, mudando de cidade em cidade, tentando me esconder daqueles sentimentos, daquela história, mas a cada novo lugar que eu ia entrava pela janela aquela vida, o amor, um amor proibido que nutri pelo meu próprio irmão, um amor forte que não me deixava fugir de mim mesma, das lembranças, das incógnitas que havia ainda na minha cabeça, mas aprendi a conviver com tudo isso.
Foram tantos lugares, cada cidade um jeito, um lugar, as vezes fugia mais e mais uma vez, eu sabia que tinha gente me procurando mas eu dava um jeito e lançava-me a uma nova vida, e me transformava numa nova pessoa e criava um mundo novo e todo meu, um mundo que tinha um príncipe e uma princesa, um castelo, e um segredo, um mundo colorido e feliz, apesar de tudo a felicidade que eu sabia achar em pequenos lugares e coisas estava lá ao meu lado, e a vida seguia assim.
Foi numa manhã de domingo, uma manhã silenciosa como as manhãs de domingo que me deparei com a notícia no jornal de que vó tinha falecido, em uma foto preto e branco pude ver o sorriso faceiro que ela erguia com gosto, com gesto de quem sabia muito, mas queria aprender, e ao lado dela, Leandro, assim como o havia deixado, meu coração começou uma melodia desregular e uma tristeza sem fim veio ao meu encontro, como se todo aquele passado viesse a tona, e caísse sobre mim, ver Leandro fez meu coração apertar, desejo de estar ao lado dele, mas era o meu irmão, uma mistura de sentimentos, um devaneio, dor, lembrança, tantos sentimentos.
Não resisti aquela confusão que havia se instalado dentro de mim, tinha que vê-los mais uma vez, fui até o cemitério, penso que dava pra ouvir as batidas do meu coração num espaço de um quilometro, tentei ficar afastada, escondida, uma melancolia inebriava o lugar todo, havia um número pequeno de pessoas, todas com os ares pesaroso de terem perdido uma grande amiga, uma grande mulher.
__ Helena!continuaa......
segunda-feira, 9 de março de 2009
Muitas e muitas vezes voltamos a mansão, os laços de nós três ficava cada vez mais estreito, aos poucos fui contando minha história, aos poucos ganhei a confiança da avó de Leandro, e passávamos horas conversando, eram tardes tão boas.
A mansão passou a ficar mais iluminada, torrentes de calor, ventos de verão entravam por aquelas janelas, havia um canto especial que sempre ficávamos lá, vó sempre ficava lá, era uma pequena biblioteca, tinham vários livros, porta retratos em preto e branco, caixas com cartas e recordações, eu olhava de longe não tocava em nada, não tinha esse direito, havia ainda uma parede com retratos de pessoas queridas, bisavós, o pai de Leandro, dava pra perceber que estava ali a anos, percebi que um retrato tinha sido tirado de lá a pouco tempo, tinha uma marca que não pode ser escondida pela fotografia nova que estava por cima, fotografia essa que era de um bebê gordinho, Leandro, de fraldas e os pequenos olhos vermelhos, cheios de água, eu quis saber o motivo do choro, um brinquedo em troca do sorriso do garoto, mas não funcionou bem, deixaram a foto porque era um bebê tão bonitinho e gordinho.
Na manhã de quarta-feira, vó não se sentiu bem, mas não era tão grave, Leandro a levou ao hospital, era uma mulher idosa e não podia brincar com sua saúde, e Leandro cuidava dela muito bem. Fui até a mansão, recebi a missão de pegar umas roupas, um livro o qual ela me recomendou para ajudar a passar as horas que ficaria lá pra observação a pedido do neto querido que ela não desobedecia em nada.
Ao chegar a mansão, passei pela ante sala de onde se avistava a biblioteca, vi uma caixa um pouco aberta, uns papeis fora do lugar e fui até lá para ajeitar, vó devia estar bem ali no momento que se sentiu mal e não teve tempo para voltar tudo a harmonia simétrica de antes. Havia uma caixa, era de madeira, cor escura, tinha um trabalhado tão belo, era uma bela caixa, e estava aberta, tinha cartas antigas, pude ver pelos envelopes amarelados, juntei tudo e coloquei dentro da caixa, lá dentro havia uma moldura, uma moldura bonita e antiga também, uma foto em preto e branco, era uma mulher com uma criança no colo, uma menina de vestidinho e fita no cabelo, num relance que eu olhei pensei que a mulher da foto me era familiar, meu coração neste instante falhou um tom nas batidas e dei um sobressalto, uma corrente de ar gelado passou por mim, seria mesmo o que meus olhos estavam vendo, era mesmo aquele mulher, a mesma mulher que conheci anos antes na minha infância, era Izabel, jamais me esqueceria daquele sorriso, tão amiga, meiga, jovem e bonita, aquele pátio, as flores atrás, eu sabia quem eram e onde estavam.
Deixei tudo como estava e saí correndo, tinha tantas perguntas, tanto pensamento correndo por dentro de mim, tantas lembranças, o pátio, a mulher, as flores, mas porque ali, porque? Pela primeira vez tentava entender, tentava me lembrar de onde realmente eu tinha vindo, o orfanato, as visitas, o vestido a fita no cabelo, vó me olhava e me amava de uma maneira especial, intrigante, um carinho, a cumplicidade, adivinhava o que eu desejava, e eu só desejava tê-la por perto ouvir suas histórias e Leandro meu cavalheiro negro daquela noite fria, o último homem que eu teria na vida, Leandro, tantas indagações, hipóteses que viam a minha cabeça, certezas que não poderiam ser, pensamentos me atordoavam e eu não queria aceitar, ver o que meus olhos viram, o que meu coração sentiu. Foi assim entre soluços, pensamentos me rondando, indagações, sentimentos, medo, horror do que eu mesma estava concluindo daquilo tudo, foi assim que consegui chegar ao hospital onde encontrei Leandro a porta, estava com aquele ar sereno, calmo, uma postura de quem tem a certeza da vida e de tudo, meu ser amado, meu cavalheiro, não consegui olhar no olho dele, mas me disse que a vó tinha sentido uma dor mais forte minutos antes da minha chegada, eu quis entrar no quarto, perguntar, saber, eu tinha que saber o que estava acontecendo, porque o retrato havia sido tirado da parede, como Izabel e eu poderíamos estar naquela foto.
...
quinta-feira, 5 de março de 2009
Era sábado, o dia da minha folga, gostava tanto dos meus sábados e das minhas folgas, estava preguiçosa ainda na cama, quando ouvi Leandro entrar, ele pulou na cama junto comigo, eu ainda estava sonolenta, e ele com aquela alegria toda pra cima de mim, disse que veio me dar bom dia, me arrancou um monte de beijos e foi para o clube jogar como ele costumava fazer, quando eu conseguir me restabelecer de toda aquela energia dele eu fui tomar o meu café, calma e degustando cada momento daquele dia que pra mim era mágico, ao chegar a mesa do café me deparei com uma carta, era de Leandro:
Como era bom se sentir amada, lendo estas linhas que tinha uma caligrafia de menino, me senti a mais feliz de todas as mulheres, a mais amada, por vezes olhava pra mim e ficava a pensar o quanto toda minha vida era diferente das pessoas as quais eu convivia, diferente porque passei tantas coisas, mas era meu mundo, minha vida, minha história.
Passei minha infância num orfanato era um lugar bonito, nós tínhamos tarefas para fazer e aulas todos os dias, passei assim os meus primeiros anos de vida, tinha outras crianças e nos apegávamos umas nas outras, tinha só meninas, eram tão diferentes umas das outras, eu passava a maioria do tempo as observando, nos sábados ficávamos brincando no pátio, era o dia que não tínhamos aulas e nem muitas tarefas, no sábado íamos para o pátio onde tinha muitos jardins, sentada num banco eu passava muito tempo ali observando tudo que acontecia ao meu redor, olhava as outras garotas e um dia olhando aquela paisagem eu decidi que seria médica que queria entender as pessoas, olha-las a fundo, eu disse para uma das tias que cuidava da gente, disse que um dia seria médica, e ela com a humildade e a bondade que dilatava pelos poros a olhos nus me contou uma história, de um sonhador, não me lembro a fundo, mas me disse pra continuar sonhando, e foi o que fiz, eu sonhei.
Eu era uma criança feliz, não me lembro de ter morado em outro lugar, até sair de lá aos 18 anos, todo mês tinha um dia que nos arrumávamos todas, fita nos cabelos, sapatinho bem limpinho, o orfanato era pequeno, mas aconchegante, ainda me lembro daquelas paredes, tinha um papel de parede cor de rosa com umas florzinhas, dois andares, nos corredores vários quartos, nesse dia do mês era quando recebíamos visitas, eram casais, pessoas adultas e pessoas solteiras também, eles conversavam com a gente, às vezes traziam outras crianças, meninos, meninas era um dia bem legal, mas naquela época não sabíamos ao certo quem eram e para que vinham nos ver, alguns nunca voltavam, outros todo mês aparecia.
Eu tinha uma amiga, e me sentia especial por ter uma amiga mais velha, o nome dela era Izabel, era uma mulher adulta, todo mês vinha e me trazia um presente, uma roupa, um brinquedo, mas tudo que ganhávamos era guardado e usado coletivamente, eu com os meus 7 anos de idade entendia aquilo e sabia que aqueles presentes eram para todas nós e não só pra mim, Izabel sabia disso, ela era adulta tinha uns 25 anos, eu adorava conversar com ela, as vezes trazia alguém e ficávamos conversando, eu dizia para minhas amigas do orfanato que ela era a minha amiga, mas Izabel era muito legal e as vezes trazia presentes e doces para todas, neste dia era uma grande festa.
Depois dessas visitas não era raro uma das meninas terem que se mudar, naquela época não sabíamos ao certo o que acontecia ou o porquê elas tinham que se mudar dali, só mais tarde, mais adulta entendíamos, muitas delas eram adotadas e ganhavam uma família, mas com nossas idades era cada vez mais difícil disso acontecer, e assim a vida ia se passando, nesse tom, eu era feliz sim, tinha um diário, mas me desfiz dele, lá eu perguntava muito por uma família, as vezes assistíamos televisão e via uma cena, numa mesa, um casal de adultos e duas crianças tomando café, era a visão de família que eu tinha, e escrevia lá no diário coisas assim.Eu era feliz ali e não me questionava muito cadê eles, ou onde estava a minha família, o porque de estar ali, crescendo entendi muitas coisas, a minha realidade e das minhas amigas, estudei bastante e nunca me esqueci daquele sonho de criança, fiz alguns cursos, consegui um trabalho e aos 17 ajudava no orfanato enquanto podia. Aos 18 eu saí de lá, morei num lugar pequeno, seguindo a minha vida, aprendi, cresci, chorei, tive vitórias, tantas coisas, tanto caminho pra se percorrer até conseguir, até vencer. Hoje aqui estou eu, uma mulher independente, amada e feliz, como já disse não me envergonho de coisas que eu já fiz, eu conheço meu coração. E Leandro, meu misterioso amor, meu amado Leandro.
......................continua......................
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Conto - Parte 2
Setembro – Uma noite e tudo mudou
A vida é mesmo estranha, uma bela estranha.
Como todos os outros dias de setembro, a noite, o frio, aquela esquina era tudo tão igual. Leandro surgiu como um cavaleiro negro, depois daquela noite, mais e mais vezes nos encontramos, eu disse que estava naquela vida, pois queria minha independência financeira antes dos 25, e já tinha dinheiro o bastante para isso, aquela na verdade fora a última noite de setembro. À medida que fui conhecendo Leandro pude ter certeza e consciência de tudo aquilo, eu já estava para me formar em Psicologia não precisava mais daquelas experiências.
Leandro estava do meu lado, era um tipo de romance diferente, único, mesmo com nossas risadas soltas, nossas aventuras e desventuras Leandro era ainda misterioso para mim, ainda tinha aquele olhar triste.
Em abril do outro ano, estávamos felizes, juntos, eu já tinha enterrado aquelas histórias, aquela esquina onde conheci a razão que procurava para minha vida. Eu era sozinha neste mundo, não sabia de onde eu vinha, mas não me preocupavam tantas perguntas, apenas vivia. Onde eu cresci se aprende a destacar-se e persistir no sonho. Sorte minha.
Desde que conheci Leandro passei a escrever sobre as histórias daquele tempo, são rascunhos, experiências, histórias engraçadas, várias enrascadas que em metia.
Me formei e tenho Leandro, cada dia mais ele era a minha inspiração, eu queria com o livro passar algo de real no meio disso tudo, eu tenho orgulho de ser quem sou hoje, e o meu passado, de onde vim, isso é parte de mim, do que eu penso do que eu sou, conheço meu coração e isso basta.
Na páscoa ele me levou para conhecer uma mulher, sua avó tinha aquela aparência habitual, cabelos brancos, bochechas rosadas, um óculos redondo, andava devagar e com passos pequenos, trazia um sorriso encantador, pude ver quando sorriu pra mim. ela era uma avó normal a não ser pela sua residência, que era enorme. A decoração era clássica, havia lindos quadros na parede, eu até reconheci alguns, fiquei hipnotizada olhando uma magnífica obra de Degas, quando dei por mim estavam os dois me olhando, fiquei sem graça, rimos os três.
A Vó gostava mesmo de contar histórias, contar sobre Leandro, passamos uma tarde mágica. Leandro e eu estávamos bem felizes, leves, como sempre foi desde aquele setembro, me disse que sua avó e ele eram os únicos vivos da família, já foram uma família numerosa, com crianças por todo o lado, mas hoje só restam os dois. Após o almoço fomos os três andar por aqueles imensos jardins, tão belos, e traziam uma paz tão grande.
Caminhamos por horas, era um lugar realmente fantástico, e agradecia muito a Leandro por ter me levado lá, fiquei pensando na nossa conversa, mas não me atrevi a perguntar mais, Vó era uma pessoa bastante refinada, culta, uma mulher muito interessante. Andando pelo jardim avistei uma flor, sua beleza me encantou de um jeito, fiquei um tempo tentando guardar aquela imagem na minha mente, e quando olhei pro lado não vi mais Leandro, e nem a vó, eu estava sozinha e nem mesmo os escutava, fiquei parada um tempo, quando de repente por uma das alamedas do jardim apareceu um homem, tinha um semblante bondoso, trazia terras nas mãos, parecia o jardineiro do lugar, ele me olhou com olhar sereno e disse:
___ Então é você a escolhida?
Eu fiquei sem entender aquilo, e com muitos pensamentos passando por mim naquele momento, fiquei assustada, de repente ouvi Leandro gritar meu nome, respondi onde eu estava, e quando olhei para o lado o jardineiro já não estava, ele sumiu por entre o jardim.
Desde que cheguei a casa, não vi mais ninguém, nenhum empregado, e me perguntava como era possível manter todo aquele brilho. Mas estando com Leandro aprendi a intuir e esperar, no universo dele as respostas fluíam simplesmente.
Leandro ainda tinha aquele mesmo olhar de setembro, no livro eu contara histórias e memórias de minha vida. Eu já trabalhava na minha área, atendia em um orfanato da cidade, cuidava das crianças, era o esforço reconhecido, eu era especialmente feliz por estar ali.
Meu livro sobre Leandro, sobre mim, aquele trabalho, aquela noite, este eu não consegui ainda concluir, tanto estudo, pesquisa, livros e mais livros que li na faculdade, ainda não consegui decifrar aquele homem, decifrar Leandro.
Que mistério tinha ao redor dele, da avó, daquela casa?
......................................................continua..........................................
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Setembro – Uma noite e tudo mudou
Era setembro, uma noite fria...eu me enrolava em mim, usava meus braços pra me esquentar e esquecer aquela esquina, aquele vento frio que passava. Por alguma razão as vezes eu esquecia quem eu era, o que eu fazia, passeava em meus pensamentos, devaneios tolos, me fingia ser outro alguém, mas não pra fugir, pra sair de mim, porque sempre q eu me olhava no espelho lá estava eu, impossível fugir do que a gente traz por dentro.
Sentia que aquele era um dia bom, era especial, lá perdida em mim, em meus pensamentos eu ficava horas a fio, até que me acordavam dos sonhos era hora de trabalhar.
Avistei de longe, era um carro tão bonito, desses que a gente vê em comercial de TV, vê e tenta imaginar a gente com um daqueles, nossa.... ops mas então:
__ Oi!
__ Qual seu nome, moça?
__ Pode ser o nome que você quiser!
__ Diga seu nome? Gosto de saber com quem faço negócios.
__ Cássia!
Era um homem, moreno, parecia jovem, corpo malhado, usava terno, já era tarde da noite, no caminho até o hotel ele ficou calado, fez poucas perguntas, mas vi que me olhou de cima abaixo quando fui entrar no carro, observava meus gestos, para onde eu olhava, e o carro fazia um burburinho só, era um luxo, tudo novo e cheirava bem.
Quando chegamos, era o apartamento em que ele morava, ou qualquer coisa parecida, porque estava tudo tão perfeitamente organizado. Em uma das paredes tinha uma estante enorme cheia de livros e peças lindas de decoração. Nossa eu me segurei para não me apaixonar de vez por ele, tão lindo.
Eu sempre me cuidei e me cuido, gosto e sei falar, leio muitos livros, sou inteligente, estudo, me alimento bem, sou bonita, bom pelo menos é o que todos dizem, na verdade sempre tive muita sorte, sou muito amada.
Ele me disse que se chamava Leandro, empresário, falou pouco dele, eu também nem queria saber, sei que era um homem lindo de viver. Chegamos e ele gentilmente me ofereceu uma taça de vinho, parecia calmo, sentamos na sala e ele quis saber sobre mim, minhas vontades, sonhos, prazeres, do que eu gostava.
Eu tinha 25 anos, tinha muitos sonhos, muitas histórias pra contar, muitas e muitas coisas a dizer, ele parecia se divertir com o que eu falava, bebemos algumas taças de vinho, e a madrugada veio chegando, eu falava e ele sorria, eu falava e ele dizia algo tão encantador que eu ficava sem saber se o agarrava ou se ficava ali só olhando. Disse-me já tinha se deparado comigo.
Leandro falou pouco dele, do pai, sua vida, disse que tinha um milhão de amigos, mas naquela noite quis algo diferente, sentiu que era uma noite diferente, queria alguém de verdade e ninguém somente o bajulando, o que era quase impossível, de tão anjo que aquele homem era, de tão lindo...
A meia luz, aquela sala toda arrumada, Leandro foi chegando mais perto, nos beijamos, como se fossemos os mesmos adolescentes de anos atrás, fizemos amor como se fossemos cúmplices, e foi uma transa muito legal, a conversa a noite, tudo foi muito legal.
Leandro tinha tudo que alguém pudesse querer, mas olhando no fundo de seus olhos pude ver quantos sonhos ele tinha, quantos mistérios.
Foi uma noite incrível, perfeita. Tem coisas que a gente sente, tem pessoas que passam por nós e a gente sente que aquela pessoa é especial, e também sei que há modos diferentes desses anjos aparecerem nas nossas vidas.
Leandro no seu misterioso olhar, me pareceu triste, uma tristeza sem fim.
Mas por que aquele homem perfeito era triste?
E por que o destino nos uniu?
...........................................................continua................