Muitas e muitas vezes voltamos a mansão, os laços de nós três ficava cada vez mais estreito, aos poucos fui contando minha história, aos poucos ganhei a confiança da avó de Leandro, e passávamos horas conversando, eram tardes tão boas.
A mansão passou a ficar mais iluminada, torrentes de calor, ventos de verão entravam por aquelas janelas, havia um canto especial que sempre ficávamos lá, vó sempre ficava lá, era uma pequena biblioteca, tinham vários livros, porta retratos em preto e branco, caixas com cartas e recordações, eu olhava de longe não tocava em nada, não tinha esse direito, havia ainda uma parede com retratos de pessoas queridas, bisavós, o pai de Leandro, dava pra perceber que estava ali a anos, percebi que um retrato tinha sido tirado de lá a pouco tempo, tinha uma marca que não pode ser escondida pela fotografia nova que estava por cima, fotografia essa que era de um bebê gordinho, Leandro, de fraldas e os pequenos olhos vermelhos, cheios de água, eu quis saber o motivo do choro, um brinquedo em troca do sorriso do garoto, mas não funcionou bem, deixaram a foto porque era um bebê tão bonitinho e gordinho.
Na manhã de quarta-feira, vó não se sentiu bem, mas não era tão grave, Leandro a levou ao hospital, era uma mulher idosa e não podia brincar com sua saúde, e Leandro cuidava dela muito bem. Fui até a mansão, recebi a missão de pegar umas roupas, um livro o qual ela me recomendou para ajudar a passar as horas que ficaria lá pra observação a pedido do neto querido que ela não desobedecia em nada.
Ao chegar a mansão, passei pela ante sala de onde se avistava a biblioteca, vi uma caixa um pouco aberta, uns papeis fora do lugar e fui até lá para ajeitar, vó devia estar bem ali no momento que se sentiu mal e não teve tempo para voltar tudo a harmonia simétrica de antes. Havia uma caixa, era de madeira, cor escura, tinha um trabalhado tão belo, era uma bela caixa, e estava aberta, tinha cartas antigas, pude ver pelos envelopes amarelados, juntei tudo e coloquei dentro da caixa, lá dentro havia uma moldura, uma moldura bonita e antiga também, uma foto em preto e branco, era uma mulher com uma criança no colo, uma menina de vestidinho e fita no cabelo, num relance que eu olhei pensei que a mulher da foto me era familiar, meu coração neste instante falhou um tom nas batidas e dei um sobressalto, uma corrente de ar gelado passou por mim, seria mesmo o que meus olhos estavam vendo, era mesmo aquele mulher, a mesma mulher que conheci anos antes na minha infância, era Izabel, jamais me esqueceria daquele sorriso, tão amiga, meiga, jovem e bonita, aquele pátio, as flores atrás, eu sabia quem eram e onde estavam.
Deixei tudo como estava e saí correndo, tinha tantas perguntas, tanto pensamento correndo por dentro de mim, tantas lembranças, o pátio, a mulher, as flores, mas porque ali, porque? Pela primeira vez tentava entender, tentava me lembrar de onde realmente eu tinha vindo, o orfanato, as visitas, o vestido a fita no cabelo, vó me olhava e me amava de uma maneira especial, intrigante, um carinho, a cumplicidade, adivinhava o que eu desejava, e eu só desejava tê-la por perto ouvir suas histórias e Leandro meu cavalheiro negro daquela noite fria, o último homem que eu teria na vida, Leandro, tantas indagações, hipóteses que viam a minha cabeça, certezas que não poderiam ser, pensamentos me atordoavam e eu não queria aceitar, ver o que meus olhos viram, o que meu coração sentiu. Foi assim entre soluços, pensamentos me rondando, indagações, sentimentos, medo, horror do que eu mesma estava concluindo daquilo tudo, foi assim que consegui chegar ao hospital onde encontrei Leandro a porta, estava com aquele ar sereno, calmo, uma postura de quem tem a certeza da vida e de tudo, meu ser amado, meu cavalheiro, não consegui olhar no olho dele, mas me disse que a vó tinha sentido uma dor mais forte minutos antes da minha chegada, eu quis entrar no quarto, perguntar, saber, eu tinha que saber o que estava acontecendo, porque o retrato havia sido tirado da parede, como Izabel e eu poderíamos estar naquela foto.
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