Sinto que eu posso tudo, posso viver, inventar vidas, nomes, todas as coisas, hoje sou uma pessoa, amanhã outra, no orfanato as vezes brincávamos de ser, artista, homem, mulher, mãe, mendigo, filha, filho, naquela época tínhamos o poder de sonhar e sonhamos.
Tanto tempo se passou e os sentimentos, as histórias, as cartas e as manhãs de sábado se tornaram parte de mim, dos meus pesadelos, das lembranças boas e ruins, eu fugi de lá, daquela cidade, fugi de Leandro, eu fugi, tentando levar comigo o que eu nunca tive, aquela família, o irmão, aquela história, Izabel, é como se eu tivesse perdido o que eu nunca cheguei a ter, eu tentei deixar tudo de lado, fugindo, há cinco anos ando pela vida a fora, mudando de cidade em cidade, tentando me esconder daqueles sentimentos, daquela história, mas a cada novo lugar que eu ia entrava pela janela aquela vida, o amor, um amor proibido que nutri pelo meu próprio irmão, um amor forte que não me deixava fugir de mim mesma, das lembranças, das incógnitas que havia ainda na minha cabeça, mas aprendi a conviver com tudo isso.
Foram tantos lugares, cada cidade um jeito, um lugar, as vezes fugia mais e mais uma vez, eu sabia que tinha gente me procurando mas eu dava um jeito e lançava-me a uma nova vida, e me transformava numa nova pessoa e criava um mundo novo e todo meu, um mundo que tinha um príncipe e uma princesa, um castelo, e um segredo, um mundo colorido e feliz, apesar de tudo a felicidade que eu sabia achar em pequenos lugares e coisas estava lá ao meu lado, e a vida seguia assim.
Foi numa manhã de domingo, uma manhã silenciosa como as manhãs de domingo que me deparei com a notícia no jornal de que vó tinha falecido, em uma foto preto e branco pude ver o sorriso faceiro que ela erguia com gosto, com gesto de quem sabia muito, mas queria aprender, e ao lado dela, Leandro, assim como o havia deixado, meu coração começou uma melodia desregular e uma tristeza sem fim veio ao meu encontro, como se todo aquele passado viesse a tona, e caísse sobre mim, ver Leandro fez meu coração apertar, desejo de estar ao lado dele, mas era o meu irmão, uma mistura de sentimentos, um devaneio, dor, lembrança, tantos sentimentos.
Não resisti aquela confusão que havia se instalado dentro de mim, tinha que vê-los mais uma vez, fui até o cemitério, penso que dava pra ouvir as batidas do meu coração num espaço de um quilometro, tentei ficar afastada, escondida, uma melancolia inebriava o lugar todo, havia um número pequeno de pessoas, todas com os ares pesaroso de terem perdido uma grande amiga, uma grande mulher.
__ Helena!continuaa......
Nenhum comentário:
Postar um comentário