A velha casa
Posso sentir ainda aquela brisa tocando meu rosto, meu coração em desastre, me aperta, sinto calafrios, meu corpo todo sente um arrepio.
Parado ali na frente daquela casa, tanta coisa me vem a mente, olhando esta rua, neste banco que tantas vezes fiquei admirando aquela casa, aquela velha e linda casa, penso mil coisas mil histórias, quem poderia morar ali, naquele objeto de minhas veias, tensões, sonhos, pesadelos.
Olhando daqui deste banco, do outro lado da rua, o vento me tocando, agasalhado assim como estou, sinto uma imensidão dentro de mim, é tanta coisa que pode ser que eu não sei ao certo nem mais quem sou quando fico aqui.
Sei que passo e já passei horas a fio aqui a olhar pra lá, posso desenhar daqui da minha lembrança cada detalhe deste ponto de visão, é como se fosse um quadro a minha frente, um quadro pintando com tanto sentimento e paixão que deve ser exatamente isso que me invade e me inebria de algo que não sei que não posso controlar.
Estar aqui à frente dela, da casa, folhas secas pela rua, uma rua deserta, são quatro da tarde e não vejo ninguém, que penso estar invisível, será magia vindo de lá.
Há cinco anos quando me mudei pra esta rua, a vi pela primeira vez no dia em que, quem eu muito amei se foi, ela se interessou por um outro alguém, nosso casamente marcado, anos e anos planejando aquilo, aquele dia, este lugar, esta casa, nosso lar, em um segundo e tudo que eu acreditava se foi, não tinha mais nada a não ser o Tom, meu cachorro, meu único e amado companheiro.
Ao descobrir tudo, toda aquela farsa, ao vê-la partindo naquele carro preto, era uma tarde assim de outono, havia folhas secas no chão que teimavam em rodopiar por aí, pareciam dançar ao som das batitas 'inépitas' do meu coração, era minha vida que se ia partindo, desesperado, sem ter planos me sentei nesse banco, e a olhar senti todos os sentimentos juntos e alvoraçados dentro de mim, as folhas no chão continuavam seu ritual de dança ao som das batitas do meu coração que aos poucos se tornava um ritmo tão desigual que mais parecia uma canção, dessas tão geniais que aos ouvidos comuns, alheios, não faziam o menor sentido.
Desde então essa casa me fascina, a rua, as árvores, o cheiro de solidão que passa no ar, o cheiro frescos de umas flores mórbidas pelo outono, a sensação de estar sozinho no mundo, naquele mundo, pequeno mundo que era minha rua.
Em casa eu tentava me distrair, escrever, pintar, ler, mas tudo que eu fazia me trazia a mente aquela casa, como se a dor de ver Anny indo embora, tivesse ficado numa redoma que inebriava meu ser olhando pra lá.
Há cinco anos, que cá estou, que aqui vivo comigo mesmo, não quiz mais nada, nem sair, nem viver, minha irmã me fornece tudo que preciso, comida, bebida tudo que preciso para gastar o resto de sopro de vida que tenho, não quero ver ninguém, nada, minha velha casa, meu esconderijo é onde fico, e a casa grande da rua é onde me escondo de mim mesmo, meus amigos os mesmo de Anny já desistiram de mim, não me ligam mais, a correspondência está toda guardada, prefiro não ler, não ver o mundo, este que a levou, viverei pra mim.
Também não conheço os vizinhos, não sei quem está lá e não me importa muito, tudo que quero é poder olhar, gravar, pintar cada detalhe na minha memória, é como um ópio que me leva, sento lá, fico a olhar, e saio deste mundo.
Sinto a brisa tocar de leve meu rosto, e meu coração em batidas frenéticas que faz com que as folhas dancem, dancem ao som da minha dor, do meu amor, do meu viver, dançam ao som daquilo que um dia eu quiz pra mim, hoje não me resta mais, nem tempo, nem forças, nem coragem, ela se foi e foi para sempre, não me importa nem viver, nem vida alguma.
Tom, eu e nada mais.
