quinta-feira, 5 de março de 2009

Conto - Parte 3

Era sábado, o dia da minha folga, gostava tanto dos meus sábados e das minhas folgas, estava preguiçosa ainda na cama, quando ouvi Leandro entrar, ele pulou na cama junto comigo, eu ainda estava sonolenta, e ele com aquela alegria toda pra cima de mim, disse que veio me dar bom dia, me arrancou um monte de beijos e foi para o clube jogar como ele costumava fazer, quando eu conseguir me restabelecer de toda aquela energia dele eu fui tomar o meu café, calma e degustando cada momento daquele dia que pra mim era mágico, ao chegar a mesa do café me deparei com uma carta, era de Leandro:
Amada
Eu te amo tanto, tanto que sinto a responsabilidade de vê-la feliz, de vê-la sorrir, um sorriso lindo este seu que tanto me encanta, nossos olhos se cruzaram e a partir dali alguma coisa mudou, uma luz se acendeu e os jardins eram todos mais vivos, mais coloridos, eu vejo cores, amores, vejo você com esses olhinhos pequenos me olhando.Houve um tempo em que eu pensei que amar e ser amado fosse invenção de poetas que não consultaram meu coração, eu já estava triste e desacreditado desse mundo que vivemos, aí eu encontrei você, toda linda me oferecendo tudo aquilo que um dia eu sonhei ter, um relacionamento todo desenhado para mim, você é o meu melhor presente.Quando eu penso em você, eu penso no que eu quero para o meu futuro, é você que está lá comigo, eu não tenho pressa se você estiver ao meu lado, quero cuidar de você, fazer suas vontades, satisfazer seus desejos, porque você é o meu tesouro, eu gosto de te amar, gosto tanto de ter você, não se assuste com o meu sentimento, não se esqueça dos sonhos que tenho ao seu lado e peço que me deixe ler o seu coração, somos duas pessoas, dois seres, duas culturas, manias, sonhos, desejos, duas histórias, duas vidas, sofremos, sorrimos, dois prazeres, vícios, amigos, compreensões, entendimentos, tanto infinito juntos, misturados e medidos para formar este ser que é você, que sou eu, seres diferentes e ao mesmo tempo infinito e maravilhosamente ligados, eu desejo dividir a minha vida com você, viver ao seu lado pelo tempo que eu tiver, ao seu lado para te decifrar, completar, admirar, contemplar, eu quero sua força, o seu afago, o abraço, o carinho, o calor das noites frias, e das noites quentes, quero ser os seus olhos, o seu repouso, o seu gozo, eu quero você.Amar é maravilhosamente perfeito quando seu amor é devolvido à altura, me sinto amado por você, me sinto feliz, me sinto vivo e viver ao seu lado tem sido melhor a cada dia. Obrigado por fazer parte da minha vida, da minha história, uma história de amor, de viver, obrigado por me ensinar tanto, por ser parte do meu dia, da minha noite, por me ligar e dizer simplesmente boa noite, por ser feliz e sorrir, obrigado por viver comigo, por sair, por fazermos o amor mais lindo que pode haver, obrigado por eu te amar, por me acordar com uma mensagem de amor, pelos beijos de bom dia, pelos beijos de boa noite, pelo corpo quente que me afaga em noites amenas, obrigado pela vida que me empresta, por dividir suas historias comigo, obrigado pelo amor dispensado, pelo carinho trocado, pelos olhares cúmplices, por fazer aquele gesto lindo com a boca e olhar diretamente para dentro de mim, pelos sorrisos que já me destes, obrigado por pensar simplesmente em mim, obrigado por você viver e ser minha namorada.
Leandro

Como era bom se sentir amada, lendo estas linhas que tinha uma caligrafia de menino, me senti a mais feliz de todas as mulheres, a mais amada, por vezes olhava pra mim e ficava a pensar o quanto toda minha vida era diferente das pessoas as quais eu convivia, diferente porque passei tantas coisas, mas era meu mundo, minha vida, minha história.

Passei minha infância num orfanato era um lugar bonito, nós tínhamos tarefas para fazer e aulas todos os dias, passei assim os meus primeiros anos de vida, tinha outras crianças e nos apegávamos umas nas outras, tinha só meninas, eram tão diferentes umas das outras, eu passava a maioria do tempo as observando, nos sábados ficávamos brincando no pátio, era o dia que não tínhamos aulas e nem muitas tarefas, no sábado íamos para o pátio onde tinha muitos jardins, sentada num banco eu passava muito tempo ali observando tudo que acontecia ao meu redor, olhava as outras garotas e um dia olhando aquela paisagem eu decidi que seria médica que queria entender as pessoas, olha-las a fundo, eu disse para uma das tias que cuidava da gente, disse que um dia seria médica, e ela com a humildade e a bondade que dilatava pelos poros a olhos nus me contou uma história, de um sonhador, não me lembro a fundo, mas me disse pra continuar sonhando, e foi o que fiz, eu sonhei.

Eu era uma criança feliz, não me lembro de ter morado em outro lugar, até sair de lá aos 18 anos, todo mês tinha um dia que nos arrumávamos todas, fita nos cabelos, sapatinho bem limpinho, o orfanato era pequeno, mas aconchegante, ainda me lembro daquelas paredes, tinha um papel de parede cor de rosa com umas florzinhas, dois andares, nos corredores vários quartos, nesse dia do mês era quando recebíamos visitas, eram casais, pessoas adultas e pessoas solteiras também, eles conversavam com a gente, às vezes traziam outras crianças, meninos, meninas era um dia bem legal, mas naquela época não sabíamos ao certo quem eram e para que vinham nos ver, alguns nunca voltavam, outros todo mês aparecia.

Eu tinha uma amiga, e me sentia especial por ter uma amiga mais velha, o nome dela era Izabel, era uma mulher adulta, todo mês vinha e me trazia um presente, uma roupa, um brinquedo, mas tudo que ganhávamos era guardado e usado coletivamente, eu com os meus 7 anos de idade entendia aquilo e sabia que aqueles presentes eram para todas nós e não só pra mim, Izabel sabia disso, ela era adulta tinha uns 25 anos, eu adorava conversar com ela, as vezes trazia alguém e ficávamos conversando, eu dizia para minhas amigas do orfanato que ela era a minha amiga, mas Izabel era muito legal e as vezes trazia presentes e doces para todas, neste dia era uma grande festa.

Depois dessas visitas não era raro uma das meninas terem que se mudar, naquela época não sabíamos ao certo o que acontecia ou o porquê elas tinham que se mudar dali, só mais tarde, mais adulta entendíamos, muitas delas eram adotadas e ganhavam uma família, mas com nossas idades era cada vez mais difícil disso acontecer, e assim a vida ia se passando, nesse tom, eu era feliz sim, tinha um diário, mas me desfiz dele, lá eu perguntava muito por uma família, as vezes assistíamos televisão e via uma cena, numa mesa, um casal de adultos e duas crianças tomando café, era a visão de família que eu tinha, e escrevia lá no diário coisas assim.Eu era feliz ali e não me questionava muito cadê eles, ou onde estava a minha família, o porque de estar ali, crescendo entendi muitas coisas, a minha realidade e das minhas amigas, estudei bastante e nunca me esqueci daquele sonho de criança, fiz alguns cursos, consegui um trabalho e aos 17 ajudava no orfanato enquanto podia. Aos 18 eu saí de lá, morei num lugar pequeno, seguindo a minha vida, aprendi, cresci, chorei, tive vitórias, tantas coisas, tanto caminho pra se percorrer até conseguir, até vencer. Hoje aqui estou eu, uma mulher independente, amada e feliz, como já disse não me envergonho de coisas que eu já fiz, eu conheço meu coração. E Leandro, meu misterioso amor, meu amado Leandro.


......................continua......................

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