Mãezinha
Sabi mãe
sabi você é a mulher que quero ser
meu coração fica daqui
eu já consegui tanto, já fui tão longe
Para você que me ensinou o que é amar de verdade
Eu vivo para lhe dar orgulho
Porque eu te amo tanto.
ººº
Não quero mais
Então é isso assim.
o amor virou
virou-se contra mim
eu que te desprezava
tentava fugir
não gostava do teu cheiro
tua história, teu querer
Tinha o cheiro de confusão
e eu estava certo sim
porque fez da minha vida
uma confusão sem fim
Não posso mais viver
Eu tento e tento
mas você tenta e me atenta
me aperta e consegue o que quer
não quero mais você
Me atenta, atenta e o teu cheiro
cheiro de amor,
um cheiro que me quer
um cheiro de flor,
amor, bem me quer
eu não sei mais
não quero mais
não posso mais
não quero
Viver assim
Com você longe de mim
Sem os teus dias aqui
Perto de mim
Então é isso
Bem assim
Volta pra mim.
Lili
Meu coração disparou, freneticamente disparado, meu corpo pedia pra eu fugir dali o mais rápido possível, mas não tinha forças, nada me obedecia a vontade que tinha, de desaparecer como um mágico desaparece.
__ Helena é você. _neste momento eu não estava mais em mim, não pensava, mal respirava, não agia, não me mexia, era Leandro, o cheiro dele, aquele homem, ah como meu coração me traía.
__Helena meu amor é você. Minha vida. Você veio, precisamos conversar, não foge de mim mais, estamos te procurando a anos.
Eu não conseguia dizer nada, ele também mal conseguia respirar, e me apertava como se aperta o urso preferido da infância, e falava tantas coisas, tantas que mal posso relatar aqui, pois minha mente passou a não funcionar, eu me inebriava e tentava decifrar todos aqueles sentimentos que borbulhavam entre meus pensamentos, eu saía de mim, não era possível que ele não soubesse que éramos irmãos, que aquilo não podia, não era certo, não era um amor comum, éramos irmãos.
Ele ficou comigo, me pegou pelo braço não me deixou sair de perto dele um segundo se quer, sabia que eu fugiria daquela situação, daqueles sentimentos, ficou perto de mim, a cerimônia continuou, estava ali, mas não estava, eu sentia tanto pela vó, a amava tanto mesmo sem saber que era minha própria vó, a única pessoa da minha família, aliás tinha Leandro, meu próprio irmão, fomos impedidos de alcançar um amor de irmãos, um amor de proteção, um amor de cúmplices das travessuras da infância, eu estava para explodir com tantos sentimentos juntos, meu coração em alarde o tempo todo.
Leandro me levou até a mansão, eu não relutei não conseguia, eu me deixava levar mesmo querendo fugir como a cinco anos atrás, eu não queria saber de mais nada, eu já tinha perdido aquela família que eu nunca nem mesmo tive, mas ele me levou e eu por fim me deixei ir. A mansão, passamos momentos bons nos três ali, eu não conseguia olhar nos olhos de Leandro, não o encarava, e ele todo sereno parecia respeitar a minha vontade, como nos velhos tempos adivinhava os meus desejos, disse-me que iria me mostrar uma coisa, eu não relutei estava cansada de tanto fugir, voltei a mansão, voltou tudo dentro de mim, o sentimento amargado, reprimido, me deixei ir, chegar a biblioteca onde vó ficava lendo, e do lado de suas lembranças.
Na parede o quadro estava de volta ao seu lugar, era Izabel e eu, lembro-me daquele dia, nas visitas que recebíamos todos os meses no orfanato, os visitantes traziam lanches, brincadeiras, uns contavam histórias e ficávamos a sua volta, ouvindo, cantando, Izabel sempre ia me ver, era a minha melhor amiga, me contava histórias, me falava de sonhos, de valores, era o meu dia de criança preferido.
Leandro me trouxe uma carta, pude ver que ele estava muito abatido, triste, queria acarinhá-lo, mas não podia, não conseguia meus sentimentos ainda estavam exauridos por uma verdade que eu não queria saber, não queria acreditar, e me apegava ao passado, no nosso amor proibido, incestuoso, proibido.
Minha querida neta;
Enfim posso chamá-la assim, uma vontade guardada, engasgada que trouxe comigo. Perdoe-me, eu queria te falar a verdade, mas meu coração dizia não ser a hora, assim eu fui traída, porque te perdi mais uma vez, eu sabia que não agüentaria muito tempo, estou doente, e passei a minha vida a me lamentar pela sua ausência, a sua falta, e quando Leandro me trouxe você, ele me trouxe o meu tesouro de volta, minha filha perdoe-o por mim, cometi tantos erros no passado, tantos erros pela minha vida a fora, Izabel minha filha querida, não dei a ela como a você o amor que ambas mereciam, condenei as duas, a se amarem de longe, sem poderem ser de verdade mãe e filha, o orfanato onde você cresceu é um lugar onde eu ia, quis ajudar crianças, crianças que realmente não tinham uma família, Izabel aceitou por imposição minha não revelar quem era, ela te amava tanto, você foi concebida de um amor proibido e nossa família, defendia um falso moralismo, quando Leandro chegou a esta casa, ele com aqueles olhinhos marejados, gordinho e experto, foi aos poucos amolecendo meu coração, era a alegria que eu podia ter, quando perdi Izabel, ela tinha uma doença terminal, pude ainda amá-la no pouco tempo que tivemos, quando ela se foi percebi o quanto da minha vida eu desperdicei bradando um sentimento que não merecia e nem precisava estar comigo, precisou que minha filha, minha única filha se fosse, quando você saiu do orfanato, perdemos o seus rastros o seu contato, fiquei sabendo que foi decisão sua, não mais te achamos, e isso foi me matando aos poucos. Mas começamos a te procurar, passaram longos anos que para mim foram como uma eternidade, até que a encontramos, e Leandro incumbiu de traze-la para mim, você não sabe a alegria que foi quando te vi, minha filha, nos perdoe, e perdoe Leandro o amor de vocês é como um balsámo nas feridas que eu mesma fiz no meu coração, o amor de vocês é uma chance verdadeira para que eu possa ser perdoada, por você, por ele, por Deus, por Izabel, perdoe-o e a mim.
.
Depois destas linhas, não pude conter tantas lágrimas que caíram dos meus olhos, lágrimas que por cinco anos permaneceram intactas, dentro, invadindo meu coração, por horas não consegui dizer mais nada, fiquei ali entregue a emoção de saber que eu possuía uma família, uma mãe, uma avó, Izabel, de saber que Leandro não era meu irmão e sim meu verdadeiro cavalheiro, pois me achou e me trouxe de volta. Entendi que todos temos motivos para mentir, julgando proteger, fazer o melhor para o outro, entendi que vó, minha vó, teve seus motivos, a perdoei com todo meu coração, pois me dera um lar feliz apesar de tudo, o orfanato era bem cuidado, sei que minha família era quem financiava tudo, e minha mãe que ia me visitar, sabia que tinha algo especial, ah Izabel, senti tanto quando ela parou de ir me ver, mas naquela época já entendia que os adultos tinham tanto a fazer, pensei que era como aqueles outros adultos que iam uma única vez e não voltavam nunca mais, apenas aceitei que ela não voltaria, ah minha mãe.
Entregue as lágrimas, meu coração aos pulos, e Leandro se atirou no chão junto comigo, eu quis abraçá-lo com toda a força que eu ainda achava dentro de mim, quis apertá-lo, fazer dele um pedaço de mim de tão perto que o trazia, um sentimento de alívio, de perda, de lembranças, tudo aquilo era demais para mim, logo pra mim que sempre fui tão forte.
Vi-me no jardim do orfanato, as flores, as cores, as paredes cor de rosa, tudo estava lá, levantei e fui até as minhas amigas, as meninas, todos com seus vestidinhos, e laços no cabelo, era o sábado de visitas eu sentia alegria dentro de mim, como antes, como naqueles anos. Chegando mais perto eu pude ver minha mãe, tão bela, doce, trazia para aquelas meninas e eu uma alegria tão grande, e transmitia paz, amor, ao falar ela fazia gestos, e nos fazia rir, era uma tarde linda.
Izabel me olhou nos olhos por um instante, era verdadeiramente minha mãe, ficamos assim olho no olho tão perto que podia ver os detalhes do rosto dela, dos olhos, minha mãe, ela me abraçou forte, eu senti o cheiro dela, um cheiro de mãe, e fiquei com meu coração em paz, ela me disse para dormir.
Ao acordar, eu estava em um hospital, eu me senti enjoada, Leandro estava lá, perto de mim, ele me abraçou forte e pediu para que eu não o abandonasse de novo, eu o abracei e ficamos ali por um tempo, era o abraço que eu tanto desejava sem poder aceitar, sem me julgar, era um abraço de amor.
Um enfermeiro entrou no quarto e anunciou uma visita.
__ Mamãe, mamãe!!!
Era João com aquela alegria toda e pulou em cima de mim, e me abraçou e apertou com toda a força dos seus cinco anos de idade. Roberto entrou logo depois, e me contou todas as proezas que fizera João na minha ausência, eu já estava com muitas saudades.
Leandro estava saindo do quarto, estava com os olhos vermelhos, assim como os meus olhos.
__Roberto este é Leandro, Leandro este é meu grande amigo e anjo da guarda, Roberto!
Leandro estava meio em choque, com aquele olhar de quem não estava entendendo algo, quando João disse com uma voz de alegria e excitação!!
__É papai mamãe? – neste momento meus olhos se encheram d’água e tudo que pude fazer foi chorar, abracei João, Leandro chegou mais perto e num similar de euforia e emoção nos abraçou também, era os meus dois amores, agora juntos e permitidos, eram minha vida. Leandro não sabia o que dizer e balbuciava qualquer pergunta, mas seu coração estava fazendo uma descompassada melodia, era aqueles mesmos olhos que eu passava minha vida a lembrar, a imaginar, a amar.
João, meu menino, meu amor, quando saí daquele hospital naquela euforia a cinco anos atrás, naquela dor que invadia meu peito, não era só eu, tinha João, e eram tantas descobertas, tanta euforia, que eu só pensei em protegê-lo de tudo e de todos. Quando me mudei de cidade, conheci Joana e Roberto, que se tornaram grandes amigos e me ajudaram sempre. Eu trabalhei muito para dar a João a alegria e o conforto que eu podia dar, ensinei a ele os valores, a bondade, falei da minha vida, da minha história, apesar da distância, das circunstancias falava para João como seu pai era especial, e pretendia um dia apresentar os dois, pois pensava na minha vida, sem uma família e não iria negar isso a meu filho, nós dois não tínhamos culpa daquelas circunstâncias, de nos apaixonarmos, meu único e amado filho, filho de um amor, um amor sincero, um amor verdadeiro.
Fim
Sinto que eu posso tudo, posso viver, inventar vidas, nomes, todas as coisas, hoje sou uma pessoa, amanhã outra, no orfanato as vezes brincávamos de ser, artista, homem, mulher, mãe, mendigo, filha, filho, naquela época tínhamos o poder de sonhar e sonhamos.
Tanto tempo se passou e os sentimentos, as histórias, as cartas e as manhãs de sábado se tornaram parte de mim, dos meus pesadelos, das lembranças boas e ruins, eu fugi de lá, daquela cidade, fugi de Leandro, eu fugi, tentando levar comigo o que eu nunca tive, aquela família, o irmão, aquela história, Izabel, é como se eu tivesse perdido o que eu nunca cheguei a ter, eu tentei deixar tudo de lado, fugindo, há cinco anos ando pela vida a fora, mudando de cidade em cidade, tentando me esconder daqueles sentimentos, daquela história, mas a cada novo lugar que eu ia entrava pela janela aquela vida, o amor, um amor proibido que nutri pelo meu próprio irmão, um amor forte que não me deixava fugir de mim mesma, das lembranças, das incógnitas que havia ainda na minha cabeça, mas aprendi a conviver com tudo isso.
Foram tantos lugares, cada cidade um jeito, um lugar, as vezes fugia mais e mais uma vez, eu sabia que tinha gente me procurando mas eu dava um jeito e lançava-me a uma nova vida, e me transformava numa nova pessoa e criava um mundo novo e todo meu, um mundo que tinha um príncipe e uma princesa, um castelo, e um segredo, um mundo colorido e feliz, apesar de tudo a felicidade que eu sabia achar em pequenos lugares e coisas estava lá ao meu lado, e a vida seguia assim.
Foi numa manhã de domingo, uma manhã silenciosa como as manhãs de domingo que me deparei com a notícia no jornal de que vó tinha falecido, em uma foto preto e branco pude ver o sorriso faceiro que ela erguia com gosto, com gesto de quem sabia muito, mas queria aprender, e ao lado dela, Leandro, assim como o havia deixado, meu coração começou uma melodia desregular e uma tristeza sem fim veio ao meu encontro, como se todo aquele passado viesse a tona, e caísse sobre mim, ver Leandro fez meu coração apertar, desejo de estar ao lado dele, mas era o meu irmão, uma mistura de sentimentos, um devaneio, dor, lembrança, tantos sentimentos.
Não resisti aquela confusão que havia se instalado dentro de mim, tinha que vê-los mais uma vez, fui até o cemitério, penso que dava pra ouvir as batidas do meu coração num espaço de um quilometro, tentei ficar afastada, escondida, uma melancolia inebriava o lugar todo, havia um número pequeno de pessoas, todas com os ares pesaroso de terem perdido uma grande amiga, uma grande mulher.
__ Helena!