segunda-feira, 1 de julho de 2013

O velho e o pássaro




O velho e o pássaro

Um velho, sombrio, sozinho e bronco na alma e no corpo vivia em lindo prédio grande no centro da cidade, com janelas espelhadas, uma vista perfeita do céu onde tinham como vizinhos as nuvens e alguns pássaros, ele não tinha amigos, família e nem vida, não tinha o que viver, passava seus dias na sua rotina diária, diária e pontualmente seguida pelo relógio como se esperasse algo, como se esperasse não ter mais rotina ou vida, ou ter que viver.
Numa bela manhã de sábado as nunves e o céu todo reluzente da janela da sala dando o maior espetáculo já visto, mas o velho não enxergava isso, lia seu jornal, como sempre o fazia naquele horário, tomava seu café como sempre numa sincronia extasiante, o telefone toca, quebrando toda a rotina de sempre, mas o velho, sem perceber fica alheio ao que acontece, o telefone insiste, era uma sobrinha distante que há muito não se tinha notícia, ela o queria ver, marcaram encontro.
Na volta, o velho irritado com tanta novidade, trouxe consigo um pássaro, um pássaro grande, estava visilmente agitado e realmente não o queria, nem o pássaro e nem o velho, sabiam ambos, teriam que cuidar um do outro, no elevador o pássaro já demonstrava sua insatisfação, o velho sem notar a sua volta fica alheio ao que acontece, os vizinhos estranham pois aquele velho não distribuía nem um bom dia, nunca.
Do apartamento, as nuvens na janela eram como se fosse o céu, tão perto que o sentimento era de pegar aquelas nuvens branquinhas, o pássaro ficou encantado, atônito, percebia que em algum lugar da sua alma aquele era o seu lugar, o céu as nuvens, alguns pássaros que passavam por ali, por algum tempo o velho voltou a sua rotina, o pássaro ficava quieto, amiúdo, olhando e olhando para aquele céu, ele o velho continuaram, o velho sem perceber a beleza daquele céu, daquela vida.
Certo dia o passaro começou a ficar agitado, o velho, sem perceber continuou na sua rotina insosa, o pássaro agitado olhava para o céu como se já fosse sair dali, o velho percebeu o pássaro e não entendeu o motivo, ao abrir a gaiola o pássaro tentou sair, mas deparou-se com o vidro, o pássaro então agitado e fazendo muito barulho, tentou por diversas vezes fazer aquilo que a sua alma de pássaro o pedia desesperadamente, e o velho observando tentando controlar finalmente percebeu aquele céu, aquelas nuvens e um sentimento de liberdade lhe tomou conta, havia uma janela menor que podia ser aberta facilmente, o velho em um ímpeto quis abrí-la mas percebeu a agitação do pássaro e se conteve pois percebeu que o pássaro pela sua alma de pássaro voaria, e ele já havia acostumado, de certa forma um ao outro, um ao outro já se sentiam.
O pássaro por ser um pássaro, mesmo não tendo voado nunca tinha percebido em si uma alma que voa, lá dentro tinha asas, e o velho por causa do pássaro saiu do silêncio da vida que levava, e viu que lá dentro de si, fora um homem com asas, que voa, que tem uma alma.
Certa manhã a janela estava aberta, o velho vê o pássaro, que vê as nuvens e o vento passando em suas asas, o velho sente um ímpeto e se toma de sentimento, o pássaro em sua imensidão de pássaro abre suas asas e segue seu instinto, segue sua alma, o velho tomado de liberdade e de euforia, chega a janela e sente sua alma pulsar, sente suas asas a tanto tempo guardadas, fecha os olhos, e sentindo um vento e a emoção no seu corpo na sua alma também voa, para a imensidão de viver, sente o vento e a liberdade pulsar.
E na imensidão do céu os dois se confundem, pássaro e velho, uma alma que tem vida, uma alma que pode voar, e todo o resto foi não viver, finalmente o velho agora tem asas e olhos, tem vida, que por causa do pássaro recomeça a viver.

Lili Marins

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